quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Resenha. Psicologia Histórica do Novo Testamento. BERGER, Klaus.

RESENHA

BERGER, Klaus. Psicologia Histórica do Novo Testamento. Tradução: Monika Ottermann. São Paulo: Paulus, 2011. 388 p. 

Albertino da Silva Lima*

O teólogo Klaus Berger, nascido em 1940, em Hildeshein, Alemanha, estudou Filosofia, Teologia e Orientalistica em Munique, Berlim e Hamburgo. Desde 1974, é professor de Teologia do Novo Testamento na Universidade de Heidelberg. As suas áreas de pesquisas são: história da religião e literatura extracanônica, novos métodos exegéticos e história das formas e concentra-se também em hermenêutica. Seus livros estão traduzidos em de dez idiomas.
Fazer leituras sobre os livros de Berger é uma tarefa desafiadora, pois alguns contém uma linguagem acadêmica bem sofisticada e requer do leitor uma disciplina para compreender os objetivos de seus escritos. Este robusto livro de 388 páginas, traz uma linguagem mais acessível para os seus leitores, ele põe à mesa assuntos que se passam como desapercebidos no Cristianismo Primitivo, e são expostos na narrativa neotestamentária. Ao explorar os aspectos histórico-psicológicos do Novo Testamento ele não se utiliza de ferramentas da ciência moderna e sim dos seus métodos exegéticos de pesquisa.
O que chama atenção como de costume em outros livros é a enorme consulta bibliográfica, Berger dialoga suas intenções com obras de autores bem conceituados o que encorpa a sua pesquisa. As notas de rodapé são bem ricas e proporcionam um esclarecimento aos seus leitores e também os direcionam à outras fontes. O autor versa entre pensamentos acadêmicos e eclesiásticos, a porcentagem dos métodos exegéticos é bem alta, ele extrai comportamentos psicológicos dos próprios textos, o que confunde e contraria a Psicologia moderna. O método histórico-crítico é vigente em Berger, que faz, do seu estilo narrativo bem técnico.    
Há uma dedicação na introdução proposta pelo o autor, e já nas primeiras linhas ele não esconde sua intenção, “no entanto, nesse sentido, entende-se a psicologia bíblica como histórica e, dessa forma, como severamente distinta da psicologia moderna ou contemporânea” (p, 17). A psicologia histórica é tida como contribuinte para uma maneira de ver o Novo Testamento. A introdução faz uma ligação direta aos temas que ele aborda no desenvolvimento do livro, ao ter contato com um capítulo sobre um referido tema o leitor não o estranha, pois carrega em sua memória uma leve lembrança produzida no início de sua leitura.
No capítulo três Identidade e Pessoa, onde se inicia o conteúdo geral do livro, Berger capta a problemática da existência humana, não em ser uma pessoa em si, mas qual a identidade que essa pessoa possui ou possuirá. O termo que está em evidência no capítulo é o self, que acaba criando um conflito interior que gira em torno do “Eu”. É um trabalho da psicologia histórica fazer entender a nova identidade cristã que uma pessoa adquire no novo nascimento operado pelo batismo. Deixar a pessoa de Cristo viver em si, ou se vestir dele a ponto de a identidade a ser desenvolvida não seja puramente a sua, mas à dele.
O capítulo quatro Possessão por Demônios, o autor analisa os evangelhos e as cartas como textos que circulam episódios de manifestações e exorcismos de espíritos imundos e demônios. E defende a correlação de enfermidades com esses espíritos. A possessão na perspectiva de Berger tem seu início no psicológico e confronta o possuído, pelo lado negativo do demoníaco. Os evangelhos relatam sobre os demônios como “pessoas” detentoras de nomes e funções, que se rendem à um poder superior aos seus “Jesus vai ao encontro dos demônios como seu senhor e amo” (p 85).
Berger dá uma polemizada ao entrelaçar a demonologia a imagem de Deus, onde pressupõe existir elementos do demoníaco em Deus. Esta hipótese é conflitante, pois mexe com interpretações históricas e antigas que demostram o contrário, mas mesmo assim Berger é categórico “Ao contrário, os anjos representam a glória de Deus como em reflexos mil vezes fragmentados e os demônios, seu lado inescrutável e ameaçador ou cruel” (p 94).
Para a elaboração do quinto capítulo Experiência e Corpo, Berger Dialoga com R. Bultmann e retorna ao conceito do self, e ao tomar o apóstolo Paulo como exemplo ele expõe suas afirmações baseadas nas experiências corporais em seu contato com o divino e seus conceitos morais. Uma argumentação que ele faz sobre o corpo é que ele sempre está na posse de outros, embora tenhamos um corpo, sejamos uma pessoa e possuímos uma identidade. “O corpo está total e inteiramente sob a experiência dos opostos Deus versus pecado e vida versus morte” (p 106).
A constante luta da consciência psicológica em não pecar contra Deus desencadeia, na visão de Berger um dualismo “pecado e corpo”, que tem como agente destrutivo do corpo e do relacionamento com Deus, a sexualidade sem freios. O texto de 1Cor 6,18, segundo o autor, refere-se diretamente aos prazeres luxuriosos da carne. “Por meio do pecado da luxúria, o corpo é atingido como instância, porque ele é a propriedade de Deus” (p 110).  Entendo que o autor procura dispor aos leitores a escolha do self responsável pelo seu modo de vida, isto é, a pessoa que habitará (Jesus ou Satanás) o seu corpo designará o seu fim.
O capítulo seis Interior e Exterior, abarca um assunto que é bem corriqueiro no contexto do cristianismo primitivo desde os evangelhos até a sua exposição mais abrangente por Paulo e suas atas. Berger destaca a desvalorização do exterior da corporeidade humana através de práticas que comprometem a moral e a ética do ser humano. O prestígio dado ao interior é notório no decorrer dos textos neotestamentários, principalmente na ênfase dada por Paulo (Rm 7,22; 2Cor 4,16; Ef 3,16). O lado interno do ser humano tem uma valoração superior ao externo; enquanto um é fraco o outro é forte, quando um tem um aspecto corruptivo o outro por sua vez tem a função renovadora.
O capítulo sete, fala sobre a Percepção, Berger procura estabelecer os tópicos que são exteriores aos seres humanos, isto é, o que vem de fora, e de forma causal interferem nos comportamentos destes. O autor prefere sistematizar as abordagens trazidas pelo cristianismo primitivo de modo que sejam bem explícitas as suas visões e ponderações. São temáticas que mesclam entre assuntos espirituais, espirituais/humanos e humanos. Os gêneros literários contidos no Novo Testamento e nas literaturas apócrifas trazem, na ótica de Berger, em suas estruturas assuntos de psicologia histórica que polemizam e ao mesmo tempo revelam o ambiente imaginário e real dos primeiros cristãos.
Na minha análise, o capítulo sete fala de assuntos extra-humanos, porém, o oitavo Afetos, abrange as questões intra-humanas. O personagem escolhido por Berger para desencadear os enigmas deste tema, é o apóstolo Paulo e seus escritos, pois, a literatura paulina tem uma construção linguística que palmeia os comportamentos humanos pelos seus sentimentos. Para Berger, o apóstolo deixa a desejar em alguns pontos acerca de suas teses sobre a ações da alma “A meu ver, a observada falta de sentimentos intermediários em Paulo pode encontrar uma explicação quando se parte da temática paulina básica de vida e morte” (p 206). Os demais sentimentos surgem a partir deste imbróglio. Ao tocar em assuntos de aportes relacionados ao lado afetivo da humanidade tendo como ponto instrumental a psicologia histórica Berger, não foge das realidades do viver diário como: cobiça, temor, medo, amor, alegria, pavor, dor, reconhecimento e outras facetas produzidas pela alma, afim de elucidar os seus leitores de uma realidade vivida pelos primeiros cristãos.
Ao falar sobre Sofrimento no capítulo nove, o autor faz uma abordagem bem psicológica do que histórica a respeito do tema, apesar do sofrimento está atrelado mais as questões físicas e visíveis. E ao destacar este sentimento ele o correlaciona a Cristo, pois, o cerne das mensagens de Cristo e dos apóstolos eram de seguir os passos do seu Senhor, mesmo no sofrimento. Berger, deixa evidente que as literaturas neotestamentárias, trazem em seu corpo narrativo a ideia de um sofrimento temporário e compensatório, vimos isso nos testemunhos dos mártires.
O capítulo dez Religião, na minha ótica é o mais intrigante por tratar assuntos direcionados aos aspectos transcendentes dela, não se vê o autor preocupado com sua historicidade, porém, há uma atenção voltada para suas características místicas que providenciam uma experiência religiosa através de seus elementos de ligação com a interface divina da religião. A fé, o temor, a oração e experiências carismáticas adquiridas pelo contato com o Espírito Santo são na visão de Berger, peças fundamentais na construção da religiosidade no cristianismo primitivo.
Vejo o capítulo onze Atuação, como o fechamento conclusivo sobre a proposta que Berger estabeleceu em seu livro. Ao debater assuntos gerais acerca da psicologia histórica do Novo Testamento ele percebe que todos esses agrupamentos expostos nos capítulos anteriores tem uma intenção final, mais explicitada nos evangelhos que trabalham os ensinamentos para os futuros seguidores de Jesus Cristo. Não se trata de aparições de novos procedimentos de como se viver apenas, mas de como coloca-los em prática. É necessário segundo Berger, de uma consciência sóbria sobre os escritos tendenciosos e muitas vezes contrárias à vontade humana. O modelo foi dado e deve ser seguido.
Análise crítica
O tema escolhido por Klaus Berger é bem aguçador, e se torna mais ao não se apropriar de métodos investigativos da psicologia moderna. A maneira de extrair do próprio Novo Testamento informações através de experiências contadas nas narrativas, deixa o seu texto bem interessante, pois, uma leitura leiga sobre as literaturas neotestamentárias não se consegue perceber essas particularidades encontradas por ele. Captar e estudar pontos psicológicos sem o auxílio da Psicologia como ciência e obter tais resultados como os por ele obtidos, é uma tarefa honrosa.   
As conclusões que Berger chega sobre a psicologia histórica vem dos próprios textos, os gêneros literários do Novo Testamento trazem para ele uma vasta elucidação de fatos que expressam aspectos da vida humana. O ser humano como pessoa é visto por Berger, como detentor de uma identidade que por ora pode não ser a dele próprio, mas a de alguém que domina o seu “Eu”, ou, que ele deseja “vestir-se”. Jesus Cristo é o personagem principal que exerce influência nos primeiros cristãos e se prolonga até os seus escritos. Portanto, o autor faz uma análise sobre as experiências que foram adquiridas com o próprio Cristo e com os conteúdos dos escritos sobre ele.
Berger mostra que é possível ter contato com assuntos implícitos nas literaturas neotestamentárias somente com a atenção voltada para elas. O método exegético e histórico-crítico é visível nas exposições feitas por ele. As capitulações do livro são enriquecidas por subtópicos que posicionam um esclarecimento mais específico do que ele propõe relatar. Percebi, que uma de suas intenções era mostrar que o psicológico sofre interferências extra e intra-humanas. E as expressões que se notam nos comportamentos são a priori, vistas no transbordar do interior para o exterior, onde há uma desvantagem deste último, segundo a hermenêutica de Berger.
O livro além de ter um teor acadêmico bem forte ele traz consigo um diálogo com a religião prática, a fim de demonstrar características desenvolvidas por um religioso em suas buscas por experiências transcendentes. Portanto, concluo que o livro se centraliza na pressuposição de análises feitas sobre o ser humano e suas ações psico-históricas por meio de textos que sofreram o uso abusivo e qualitativo da exegese.





* Mestrando em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo – UMESP. Bacharel em Teologia pela Faculdade Unida – Vitória – ES. Licenciado em História pela Universidade do Grande Rio (UNIGRANRIO) – RJ. 

Um comentário:

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