RESENHA
BERGER,
Klaus. Psicologia Histórica do Novo Testamento. Tradução: Monika Ottermann. São
Paulo: Paulus, 2011. 388 p.
Albertino da Silva Lima*
O
teólogo Klaus Berger, nascido em 1940, em Hildeshein, Alemanha, estudou
Filosofia, Teologia e Orientalistica em Munique, Berlim e Hamburgo. Desde 1974,
é professor de Teologia do Novo Testamento na Universidade de Heidelberg. As
suas áreas de pesquisas são: história da religião e literatura extracanônica,
novos métodos exegéticos e história das formas e concentra-se também em
hermenêutica. Seus livros estão traduzidos em de dez idiomas.
Fazer
leituras sobre os livros de Berger é uma tarefa desafiadora, pois alguns contém
uma linguagem acadêmica bem sofisticada e requer do leitor uma disciplina para compreender
os objetivos de seus escritos. Este robusto livro de 388 páginas, traz uma
linguagem mais acessível para os seus leitores, ele põe à mesa assuntos que se
passam como desapercebidos no Cristianismo Primitivo, e são expostos na
narrativa neotestamentária. Ao explorar os aspectos histórico-psicológicos do
Novo Testamento ele não se utiliza de ferramentas da ciência moderna e sim dos
seus métodos exegéticos de pesquisa.
O
que chama atenção como de costume em outros livros é a enorme consulta
bibliográfica, Berger dialoga suas intenções com obras de autores bem
conceituados o que encorpa a sua pesquisa. As notas de rodapé são bem ricas e
proporcionam um esclarecimento aos seus leitores e também os direcionam à
outras fontes. O autor versa entre pensamentos acadêmicos e eclesiásticos, a
porcentagem dos métodos exegéticos é bem alta, ele extrai comportamentos
psicológicos dos próprios textos, o que confunde e contraria a Psicologia
moderna. O método histórico-crítico é vigente em Berger, que faz, do seu estilo
narrativo bem técnico.
Há
uma dedicação na introdução proposta
pelo o autor, e já nas primeiras linhas ele não esconde sua intenção, “no
entanto, nesse sentido, entende-se a psicologia bíblica como histórica e, dessa
forma, como severamente distinta da psicologia moderna ou contemporânea” (p,
17). A psicologia histórica é tida como contribuinte para uma maneira de ver o
Novo Testamento. A introdução faz uma ligação direta aos temas que ele aborda
no desenvolvimento do livro, ao ter contato com um capítulo sobre um referido
tema o leitor não o estranha, pois carrega em sua memória uma leve lembrança
produzida no início de sua leitura.
No
capítulo três Identidade e Pessoa,
onde se inicia o conteúdo geral do livro, Berger capta a problemática da
existência humana, não em ser uma pessoa em si, mas qual a identidade que essa
pessoa possui ou possuirá. O termo que está em evidência no capítulo é o self, que acaba criando um conflito
interior que gira em torno do “Eu”. É um trabalho da psicologia histórica fazer
entender a nova identidade cristã que uma pessoa adquire no novo nascimento
operado pelo batismo. Deixar a pessoa de Cristo viver em si, ou se vestir dele a ponto de a identidade a
ser desenvolvida não seja puramente a sua, mas à dele.
O
capítulo quatro Possessão por Demônios,
o autor analisa os evangelhos e as cartas como textos que circulam episódios de
manifestações e exorcismos de espíritos imundos e demônios. E defende a
correlação de enfermidades com esses espíritos. A possessão na perspectiva de
Berger tem seu início no psicológico e confronta o possuído, pelo lado negativo
do demoníaco. Os evangelhos relatam sobre os demônios como “pessoas” detentoras
de nomes e funções, que se rendem à um poder superior aos seus “Jesus vai ao
encontro dos demônios como seu senhor e amo” (p 85).
Berger
dá uma polemizada ao entrelaçar a demonologia a imagem de Deus, onde pressupõe
existir elementos do demoníaco em Deus. Esta hipótese é conflitante, pois mexe
com interpretações históricas e antigas que demostram o contrário, mas mesmo
assim Berger é categórico “Ao contrário, os anjos representam a glória de Deus
como em reflexos mil vezes fragmentados e os demônios, seu lado inescrutável e
ameaçador ou cruel” (p 94).
Para
a elaboração do quinto capítulo Experiência
e Corpo, Berger Dialoga com R. Bultmann e retorna ao conceito do self, e ao tomar o apóstolo Paulo como
exemplo ele expõe suas afirmações baseadas nas experiências corporais em seu
contato com o divino e seus conceitos morais. Uma argumentação que ele faz
sobre o corpo é que ele sempre está na posse de outros, embora tenhamos um
corpo, sejamos uma pessoa e possuímos uma identidade. “O corpo está total e
inteiramente sob a experiência dos opostos Deus versus pecado e vida versus
morte” (p 106).
A
constante luta da consciência psicológica em não pecar contra Deus desencadeia,
na visão de Berger um dualismo “pecado e corpo”, que tem como agente destrutivo
do corpo e do relacionamento com Deus, a sexualidade sem freios. O texto de
1Cor 6,18, segundo o autor, refere-se diretamente aos prazeres luxuriosos da
carne. “Por meio do pecado da luxúria, o corpo é atingido como instância,
porque ele é a propriedade de Deus” (p 110).
Entendo que o autor procura dispor aos leitores a escolha do self responsável pelo seu modo de vida,
isto é, a pessoa que habitará (Jesus ou Satanás) o seu corpo designará o seu
fim.
O
capítulo seis Interior e Exterior,
abarca um assunto que é bem corriqueiro no contexto do cristianismo primitivo
desde os evangelhos até a sua exposição mais abrangente por Paulo e suas atas.
Berger destaca a desvalorização do exterior
da corporeidade humana através de práticas que comprometem a moral e a ética do
ser humano. O prestígio dado ao interior
é notório no decorrer dos textos neotestamentários, principalmente na ênfase
dada por Paulo (Rm 7,22; 2Cor 4,16; Ef 3,16). O lado interno do ser humano tem
uma valoração superior ao externo; enquanto um é fraco o outro é forte, quando
um tem um aspecto corruptivo o outro por sua vez tem a função renovadora.
O
capítulo sete, fala sobre a Percepção,
Berger procura estabelecer os tópicos que são exteriores aos seres humanos,
isto é, o que vem de fora, e de forma causal interferem nos comportamentos
destes. O autor prefere sistematizar as abordagens trazidas pelo cristianismo
primitivo de modo que sejam bem explícitas as suas visões e ponderações. São
temáticas que mesclam entre assuntos espirituais, espirituais/humanos e
humanos. Os gêneros literários contidos no Novo Testamento e nas literaturas
apócrifas trazem, na ótica de Berger, em suas estruturas assuntos de psicologia
histórica que polemizam e ao mesmo tempo revelam o ambiente imaginário e real
dos primeiros cristãos.
Na
minha análise, o capítulo sete fala de assuntos extra-humanos, porém, o oitavo Afetos, abrange as questões
intra-humanas. O personagem escolhido por Berger para desencadear os enigmas
deste tema, é o apóstolo Paulo e seus escritos, pois, a literatura paulina tem
uma construção linguística que palmeia os comportamentos humanos pelos seus
sentimentos. Para Berger, o apóstolo deixa a desejar em alguns pontos acerca de
suas teses sobre a ações da alma “A meu ver, a observada falta de sentimentos
intermediários em Paulo pode encontrar uma explicação quando se parte da
temática paulina básica de vida e morte” (p 206). Os demais sentimentos surgem
a partir deste imbróglio. Ao tocar em assuntos de aportes relacionados ao lado
afetivo da humanidade tendo como ponto instrumental a psicologia histórica
Berger, não foge das realidades do viver diário como: cobiça, temor, medo, amor,
alegria, pavor, dor, reconhecimento e outras facetas produzidas pela alma, afim
de elucidar os seus leitores de uma realidade vivida pelos primeiros cristãos.
Ao
falar sobre Sofrimento no capítulo
nove, o autor faz uma abordagem bem psicológica do que histórica a respeito do
tema, apesar do sofrimento está atrelado mais as questões físicas e visíveis. E
ao destacar este sentimento ele o correlaciona a Cristo, pois, o cerne das
mensagens de Cristo e dos apóstolos eram de seguir os passos do seu Senhor,
mesmo no sofrimento. Berger, deixa evidente que as literaturas
neotestamentárias, trazem em seu corpo narrativo a ideia de um sofrimento
temporário e compensatório, vimos isso nos testemunhos dos mártires.
O
capítulo dez Religião, na minha
ótica é o mais intrigante por tratar assuntos direcionados aos aspectos
transcendentes dela, não se vê o autor preocupado com sua historicidade, porém,
há uma atenção voltada para suas características místicas que providenciam uma
experiência religiosa através de seus elementos de ligação com a interface
divina da religião. A fé, o temor, a oração e experiências carismáticas
adquiridas pelo contato com o Espírito Santo são na visão de Berger, peças
fundamentais na construção da religiosidade no cristianismo primitivo.
Vejo
o capítulo onze Atuação, como o
fechamento conclusivo sobre a proposta que Berger estabeleceu em seu livro. Ao
debater assuntos gerais acerca da psicologia histórica do Novo Testamento ele
percebe que todos esses agrupamentos expostos nos capítulos anteriores tem uma
intenção final, mais explicitada nos evangelhos que trabalham os ensinamentos para
os futuros seguidores de Jesus Cristo. Não se trata de aparições de novos
procedimentos de como se viver apenas, mas de como coloca-los em prática. É
necessário segundo Berger, de uma consciência sóbria sobre os escritos
tendenciosos e muitas vezes contrárias à vontade humana. O modelo foi dado e
deve ser seguido.
Análise crítica
O
tema escolhido por Klaus Berger é bem aguçador, e se torna mais ao não se
apropriar de métodos investigativos da psicologia moderna. A maneira de extrair
do próprio Novo Testamento informações através de experiências contadas nas
narrativas, deixa o seu texto bem interessante, pois, uma leitura leiga sobre
as literaturas neotestamentárias não se consegue perceber essas
particularidades encontradas por ele. Captar e estudar pontos psicológicos sem
o auxílio da Psicologia como ciência e obter tais resultados como os por ele
obtidos, é uma tarefa honrosa.
As
conclusões que Berger chega sobre a psicologia histórica vem dos próprios
textos, os gêneros literários do Novo Testamento trazem para ele uma vasta
elucidação de fatos que expressam aspectos da vida humana. O ser humano como
pessoa é visto por Berger, como detentor de uma identidade que por ora pode não
ser a dele próprio, mas a de alguém que domina o seu “Eu”, ou, que ele deseja
“vestir-se”. Jesus Cristo é o personagem principal que exerce influência nos
primeiros cristãos e se prolonga até os seus escritos. Portanto, o autor faz
uma análise sobre as experiências que foram adquiridas com o próprio Cristo e
com os conteúdos dos escritos sobre ele.
Berger
mostra que é possível ter contato com assuntos implícitos nas literaturas
neotestamentárias somente com a atenção voltada para elas. O método exegético e
histórico-crítico é visível nas exposições feitas por ele. As capitulações do
livro são enriquecidas por subtópicos que posicionam um esclarecimento mais
específico do que ele propõe relatar. Percebi, que uma de suas intenções era
mostrar que o psicológico sofre
interferências extra e intra-humanas. E as expressões que se notam nos
comportamentos são a priori, vistas
no transbordar do interior para o exterior, onde há uma desvantagem deste
último, segundo a hermenêutica de Berger.
O
livro além de ter um teor acadêmico bem forte ele traz consigo um diálogo com a
religião prática, a fim de demonstrar características desenvolvidas por um
religioso em suas buscas por experiências transcendentes. Portanto, concluo que
o livro se centraliza na pressuposição de análises feitas sobre o ser humano e
suas ações psico-históricas por meio de textos que sofreram o uso abusivo e
qualitativo da exegese.
* Mestrando em Ciências da Religião
pela Universidade Metodista de São Paulo – UMESP. Bacharel em Teologia pela
Faculdade Unida – Vitória – ES. Licenciado em História pela Universidade do
Grande Rio (UNIGRANRIO) – RJ.
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